segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Chapter 56

“Distância, tempo, separações, brigas.
Silêncio. 
O trem saiu do trilho.”

Depois de virar a chave na fechadura da porta, entrei em casa logo depois de Madison. O silêncio dominava todo o ambiente e tudo que eu fiz foi arrumar a bolsa no ombro. Depois de correr até a sala e voltar, Madison alegou estar com sede, o que me fez ir até a cozinha com ela.
Parei por impulso na porta quando vi minha mãe de costas para nós duas, fazendo alguma coisa no fogão.
— Meninas. — escutei ela dizer enquanto eu caminhava até a geladeira pegando a jarra de água. Maddie, que estava parada ao meu lado, se surpreendeu quando Dianna lhe abraçou. Ela devolveu de jeito desajeitado e me encarou. Os olhinhos assustados já que ela sabia que, sempre que Dianna tinha esses ataques de maternidade, não vinha coisa boa depois. Dianna deu um beijo na bochecha de Maddie que, assim que ela se virou para me abraçar, limpou a bochecha. Sorri fraco para ela e Dianna me segurou pelos ombros, me encarando. Ela sorriu e eu notei algo estranho em seu olhar. — Então, — caminhou até o fogão novamente — como foi o dia de vocês?
— Normal. Não aconteceu nada de diferente. Foi o de sempre. — falei encarando suas costas enquanto ignorava Maddie me olhando.
— E você, meu amor? — perguntou a Maddie, ainda de costas. Mexi os lábios num “não fala do Joe” e Maddie assentiu.
— Nada, também. Nós brincamos de massinha e colorimos. Depois fomos passear no parquinho. — respondeu enquanto vinha até meu lado. Apoiei-me na bancada que tinha no meio da cozinha e Maddie cobriu meu dedo indicador direito com a mãozinha.
— Falando em colorir, por que não vai pegar umas folhas no seu quarto enquanto eu termino o jantar? — ela olhou para Maddie e sorriu. Senti a pequena apertar meu dedo e notei que os dela estavam gelados. — Demi, não quer me ajudar? — perguntou já de costas enquanto abria o armário, procurando alguma coisa.
— Tudo bem. — respondi e Maddie pediu minha bolsa para levar para meu quarto. Assenti em silêncio passando para ela, a observei passar pela porta e logo sumir no hall que dava para as escadas. Fui até a pia e lavei as mãos, tentando não ligar muito para o silêncio que ficou ali depois que Maddie saiu. Esperei ela me mandar fazer alguma coisa, mas nada foi dito. — O que eu posso fazer? — perguntei. Dianna me olhou e foi ali que eu tive certeza de que tinha alguma coisa errada.
— Há muito tempo que eu deixei de fazer parte das coisas importantes da sua vida, não é? — engoli em seco e fingi não entender a pergunta. Não tinha saída mesmo, qualquer coisa que eu falasse agora não ia fazer diferença.
— Por que tá dizendo isso? — encarei minhas mãos e Dianna começou a mexer nervosamente na panela com uma colher de madeira.
— Fico feliz que tenha feito outras amizades, Demetria. — ela disse — Sabe, é muito bom pra uma mãe ver que sua filha tem com quem contar caso aconteça algo com ela. — dei dois passos para trás, parando do lado da bancada que havia no meio da cozinha.
— O que... — ela riu, o que me fez dar mais alguns passos, ainda de costas. Fechei minhas mãos por impulso e percebi que não tinha as secado. Esfreguei as duas nas pernas da minha calça jeans.
—  Um namorado novo, hein, Demetria? — ela se virou para mim. Meu coração saltou de forma pesada em meu peito. Do que ela estava falando?
— Mãe, de verdade, não sei do que está falando. Eu... — ela sorriu de um jeito que não restava dúvidas de que aquilo seria mais uma de suas crises. — Quem falou isso para a senhora? — a encarei tentando, talvez, mostrar que não tinha medo. O que era uma grande de uma mentira.
—Uma amiga sua. Acabei de dizer. — revirou os olhos.
— Que amiga? Sel? — Selena era a única que sabia de toda história. Tudo bem que agora Vanessa sabia também, mas eu tinha minhas dúvidas de que, no estado em que Dianna se encontrava, ela iria conseguir culpar outra pessoa a não ser a Selena, quem praticamente viveu a história comigo.
— Não. Não vejo a Selena há um bom tempo. — ela disse enquanto pegava um pano de prato que estava na bancada. — Ela estava passando aqui na frente enquanto eu estava na varanda. Muito bonita, por sinal. — ela sorriu. — O nome dela é Ashley. — ela óbvio de que ela de alguma maneira descobriu que minha mãe voltaria esta semana para casa e se aproveitou. Porque, claro, por quais motivos Ashley estaria passando na frente de nossa casa se ela mora no outro lado da cidade?
— Ela não é minha amiga. — queria acrescentar que não considerava ela nem minha colega de classe, mas eu poderia sair como a ruim na história. Mais do que eu já iria sair, talvez.
— Por favor, Demetria! Não venha mudar de assunto. Quem é o garoto? Não seria educado da sua parte o trazer para conhecer seus pais? — ela me encarou, os olhos me fuzilavam e eu me lembrei de Madison no andar de cima. Seja lá o que ela tinha arrumado para fazer lá, eu rezava para que demorasse até eu conseguir fazer Dianna se acalmar de novo. Ou até meu pai aparecer.
— Mãe. Presta atenção. — respirei fundo. — Não tem ninguém. Eu não estou namorando. — e não estava mesmo.
— Eu ainda não consigo entender como você acha que consegue me fazer de idiota. — ela jogou o pano com força em cima da mesa. — Quando iria me falar que ele tinha voltado?
— Mãe... — ela me interrompeu, dessa vez gritando.
— O que você quer?  Deixar ele te engravidar de novo e te largar? — abri a boca para falar, mas minha voz não saiu. — Eu deixei você ficar com essa menina. Mas faz de novo e vê se eu não faço você tirar. Nem que seja a força! — ela gritou.
— Para... Por favor. — eu disse desesperada, em meio às lágrimas. — Ele não me abandonou. — disse soluçando logo depois.
— Ele abandonou, sim! — gritou dando um soco na bancada, o que me fez dar mais vários passos para trás. Senti um dos grandes armários da cozinha atrás de mim. — E ele vai fazer de novo se você não acordar, se não aceitar que você tem que crescer uma hora. Tem que colocar nessa cabeça oca que isso aqui não é um conto de fadas. — ela falou, abaixando o tom. A voz tomava um tom ameaçador, o que me fez tentar, com custo, engolir o choro. — Você não é a princesa em perigo que precisa ser salva da sua vidinha medíocre, Demetria. E o Joseph muito menos é o príncipe que vai te tirar disso. — ela sorriu de forma um tanto assustadora. — A nossa vida não precisava estar esta droga que é hoje. Se você ao menos tivesse me escutado uma vez... Apenas uma.
— Te escutar para que? — eu disse com a voz embargada. — Você queria tirar a minha filha de mim. Eu nunca iria concordar. — eu falei enquanto encarava o chão. Ela se aproximou, segurou meu rosto com força fazendo-me a olhar.
— Você perdeu uma parte da sua vida por capricho. — Dianna me encarou com desprezo. — Poderia ter vivido sua adolescência como uma menina normal. — meu maxilar doía pela força que ela fazia com os dedos.
— Posso ter perdido uma parte da minha vida, mas eu tenho a Maddie. E eu prefiro do jeito que está. — disse, quase que num sussurro. Mas tinha certeza de que ela tinha escutado.
— Você prefere? — ela riu. — Como você prefere, Demetria? Fui eu que sustentei você e essa criança desde que você me apareceu com essa história. — ela disse, apertando mais meu rosto. — Ela é muito mais minha filha do que sua. — quando achei que ela já estava chegando ao ponto de partir meu maxilar, ela o apertou mais. Senti a dor piorar e empurrei seus braços, tentando me livrar dela.
Era toda vez isso. Dianna surtava e me agredia. E, bem, os médicos sempre disseram que durante os surtos o doente adquire muito mais força. E eu poderia fazer um relatório provando isso.
Quando consegui me livrar dos braços dela com o resto de força que eu tinha, senti-a acertar minha bochecha com a mão. Fechei os olhos e as lágrimas transbordaram deles. Talvez mais pela dor de ter minha mãe fazendo aquilo comigo do que pela dor física.
— Demi? — escutei a vozinha de Maddie vinda do hall da casa. Abri os olhos e a vi assustada, tentando digerir o que estava acontecendo. — Você bateu na Dems? — fechei os olhos de novo. Eu tinha feito de tudo pra Maddie nunca ter que presenciar isso. — Por que fez isso? — sua voz anunciava que poderia cair no choro a qualquer momento.
— Você cala a sua boca, se não quiser... — a empurrei. Dianna pareceu não esperar aquilo, o que fez com que ela se desequilibrasse e caísse no chão.
— Você, não encoste um dedo nela. — falei baixo. Imaginei se tinha saído ameaçador ou se ao menos tinha feito algum som. — Você não tem direito nenhum de fazer isso.
— Do mesmo jeito que você não tinha direito de fazer o que fez. E fez. — ela sorriu se levantando. — Ela é minha filha, Demi. Mesmo que só naqueles papéis guardados dentro da primeira gaveta da cômoda em meu quarto. — ela me encarou. — Mas mesmo assim, ela ainda é minha filha. E nem você pode discordar disso.
Corri até o hall, tendo tempo só de pegar a chave do meu carro na mesinha de canto que estava ali e pôr no bolso, segurar Maddie pela mão e abrir a porta logo depois.
— Onde a gente vai? — ela perguntou, tentando acompanhar meus passos rápidos. Encontrei com  Selena abrindo o portão que separava o terreno da minha casa com a calçada da rua, mas não parei para escutar o que ela tinha falado. — Dems, está doendo muito? — escutei Maddie perguntar baixinho. Respondi um “não” fraco, e segui até meu carro que estava parado na porta da garagem pelo acontecido de hoje cedo.
Abri a porta de trás, tentando reunir o pouco de concentração que tinha pra colocar Madison na cadeirinha no banco de trás. Vi que Selena tinha ficado no portão da minha casa e só começava a correr até nós naquele momento. Fechei rápido a porta de trás e andei rápido até o banco da frente. Tranquei as portas e Selena parou do lado da minha janela.
— Demi, o que foi? Onde está indo? — deixei a cabeça tombar pra trás e voltei a soluçar alto. Fechei o vidro do meu lado e escutei Selena bater nele com força. — Demi, abre esta porta! — escutei ela gritar, o som abafado por vir do lado de fora — Demi, você não pode sair assim. Por favor! — dei marcha ré com o carro e senti que ele tinha batido em alguma coisa leve, talvez uma lixeira. — Demi! — ela gritou parada na frente da minha casa. Continuei dirigindo, tentando não prestar atenção em Selena.

Selena

Levei certo tempo até conseguir entender o que estava acontecendo. Só poderia ser Dianna.
Depois de pegar o telefone e tentar ligar para Demi, o que foi em vão, decidi ligar para o primeiro nome que veio à minha cabeça naquela hora.
— Sel? — escutei a voz do outro lado do telefone. — O que aconteceu?
— Eu não sei, Joe! — eu disse tentando controlar o choro. — Eu estava vindo à casa da Demi e encontrei-a saindo com a Maddie. Ela estava chorando muito e entrou no carro. — senti um soluço escapar.
— Por que não a segurou? Caramba, ela tinha dito que a Dianna estava mais calma. — ele disse meio que resmungando a última parte.
— Eu tentei. Juro que tentei. Mas quando cheguei perto ela já tinha entrado no carro. — acabei me entregando ao choro novamente.
— Calma, Sel. Respira. — Joseph disse tentando parecer calmo do outro lado do telefone. — Onde você tá?
— Na frente da casa dela. — escutei um barulho de algo quebrando na casa atrás de mim. — Acho que a Dianna está lá dentro ainda.
— Tá ok. — Joe disse do outro lado — Eu estou indo para aí.
— Ok. — resmunguei e desliguei o aparelho na minha mão.

Respirei fundo e inclinei a cabeça para o alto, encarando o céu estrelado. Estava muito bonito para uma noite que eu sentia bem lá no fundo que não iria terminar bem. Se tinha alguém lá em cima, eu esperava que cuidasse da Demi e da Madison.

Amores! Tudo bem? Como sempre, a gente aparece aqui depois de anos e sempre com desculpas. Queria muito entender como ainda tem tanta gente lendo isso aqui, sério! Nossa, amo demais vocês <3. 
A gente some, e aparece com um capítulo desses. Eu sei, pode bater. Mas é o seguinte: Isso já estava planejado desde o começo, a gente só quis adiantar um pouco. 
Espero que tenham gostado, e digam nos comentários sobre o que acham que vai acontecer (Tantas coisas... Vai que vocês acertam uma?). Os comentários estão todos respondidos, então, quem quiser ver. 
É isso <3
Beijos, Polly.